Formação do Psicoterapeuta: lidando com o abandono de psicoterapia

Introdução

O abandono em psicoterapia refere-se basicamente àquelas situações de  interrupção do tratamento sem que haja indicação para tal encaminhamento por  parte do terapeuta (LHULLIER, NUNES, 2004).

A interrupção do tratamento ocasiona diversas consequências tanto para o  paciente como para o terapeuta e a instituição de atendimento. O abandono  psicoterápico traz para todas as partes envolvidas sentimentos de fracasso e  ineficácia (BENETTI; CUNHA, 2008).

Segundo Cunha (2008), abandonos de tratamentos se constituem como situações  que fornecem informações importantes para o processo psicoterápico,  possibilitando a identificação das situações de risco para o cumprimento do  vínculo de trabalho. Além de contribuírem para uma maior compreensão dos fatores  envolvidos na eficácia dos atendimentos, possibilita também subsídios para o  aprimoramento técnico dos terapeutas, principalmente, os terapeutas em  formação.

Tendo em vista que os abandonos de psicoterapia ocasionam vários sentimentos  dúvidas e crescimento para os psicoterapeutas em formação, esse estudo  visa  conhecer como os psicoterapeutas em formação lidam com o abandono de  psicoterapia de seus pacientes/clientes, objetivando assim, saber quais  sentimentos e questões o  abandono de psicoterapia suscita nesses  psicoterapeutas.

Psicoterapia

As psicoterapias podem ser entendidas como formas de construir experiências,  nas quais às pessoas podem enfrentar a vida de maneira mais satisfatória  (DAVIDOFF, 2001). Rogers (2005) comenta que a psicoterapia  é construída a  partir de contatos diretos com o indivíduo objetivando oferecer assistência na  alteração das atitudes e comportamentos, sendo assim, são  contatos mais  intensivos e prolongados, orientados para uma organização mais profunda da  personalidade.  As psicoterapias foram criadas para todos os indivíduos que  sofrem de algum distúrbio ou mal-estar que desejam corrigir, entretanto, estas  também visam o aprimoramento pessoal e autoconhecimento, ainda que não sofram de  distúrbios manifestos (RAMADAM,1987).

Segundo Cordiolli (1998), as psicoterapias são métodos de tratamento para  problemas de natureza emocional, nos quais uma pessoa treinada, mediante a  utilização de meios psicológicos, estabelece uma relação profissional com a  pessoa que busca ajuda, visando assim, remover ou modificar sintomas existentes  e promover o crescimento e desenvolvimento da personalidade. As psicoterapias  variam em relação às técnicas que utilizam, as teorias nas quais se baseiam, aos  objetivos, a frequência das sessões e ao tempo de duração. Entretanto existem  alguns elementos que são comuns a todas as psicoterapias que são a relação  paciente-terapeuta, a qual estão inerentes a aceitação e o apoio do paciente por  parte do terapeuta, proporcionando-lhe oportunidade para expressar emoções  perturbadoras, o contrato terapêutico e uma teoria a qual a técnica específica  se fundamenta.

A relação terapêutica é o veículo pelo qual se processam os tratamentos  psicoterápicos. Das características pessoais de paciente e terapeuta, das  reedições de vivências passadas que ambos trazem para a situação presente e da  interação desses elementos como a relação atua, única e particular que ambos  estabelecem sobre si, resulta o destino de cada psicoterapia (EIZIRIK; LIBERMAN;  COSTA, 1998, p. 67).

Ceitlin e Cordioli (1998) referem que o início de uma psicoterapia desperta  uma variedade de sentimentos e emoções em seus participantes e que grande parte  do sucesso do tratamento depende do seu entendimento e manejo adequado. A tarefa  principal do psicoterapeuta, no início do tratamento psicoterápico, é conhecer  ao máximo o seu paciente e proporcionar as condições para o desenvolvimento de  confiança genuína, aumentando assim as chances de desenvolver um desfecho  favorável da terapia. A fase inicial é crucial para a permanência ou não no  tratamento, pois muitos pacientes que abandonam o fazem nas primeiras sessões. A  permanência em terapia depende da congruência entre os objetivos do paciente e  do terapeuta.

Tornando-se Psicoterapeuta

A formação profissional e o exercício da Psicoterapia exige um trabalho árduo  e intenso sobre o próprio profissional. Todo o processo terapêutico implica um  grande envolvimento pessoal do terapeuta e o coloca diante das mais intrigantes  e profundas questões existenciais quando mergulha no universo singular de cada  cliente, e coloca-se dialogicamente disponível para a relação (CARDELLA, 2002).  Beijamin (2004) comenta que quanto mais nos conhecemos, melhor podemos entender,  avaliar e controlar nossos comportamentos e, assim, melhor compreender e  apreciar o comportamento dos outros. Quanto mais familiarizados conosco, menor a  ameaça que sentimos diante do que encontramos. Deste modo, podemos gostar de  algumas coisas nossas e tolerar melhor aquelas de que não gostamos. Quando  estamos bem com o nosso self, a tendência deste a interferir em nossa  compreensão do self do outro durante a entrevista é menor.

Segundo Cardella (2002), para ser capaz de colocar a experiência a serviço do  outro e contribuir para que cliente possa retomar seu processo de crescimento, é  preciso que o psicoterapeuta saiba qual é essa experiência, saiba de si. Não  apenas o que e como pensa, mas o que e como percebe, sente, imagina, espera,  recorda e faz na relação com o outro.

Para Benjamin (2004, p.72-3):

a compreensão exige o uso de um instrumento indispensável: ouvir. Ouvir de  verdade é um trabalho difícil, implica muita pouca coisa de mecânico. Ouvir  exige, antes de mais nada, que não estejamos preocupados, pois se estivermos,  não poderemos dar uma atenção plena. [...] O ouvir implica em escutar o modo  como as coisas estão sendo ditas, o tom usado, as expressões, os gestos  empregados,[...] inclui o esforço de perceber o que não está sendo dito, o que  apenas é sugerido, o que está oculto, o que está abaixo ou acima da superfície.  Ouvimos com nossos ouvidos, mas escutamos também com nossos olhos, coração,  mente e vísceras. [...] à medida em que aprendemos mais e mais a escutar com  compreensão os outros, mais aprendemos a escutar com compreensão a nós  próprios.

De acordo com Cardella (2002) o aprimoramento e a qualidade da formação  profissional se favorece com o desenvolvimento pessoal do aluno, ou seja, em  situações nas quais o aluno possa alargar seu campo de percepção e o contato com  seu próprio universo. O aluno/profissional precisa estar familiarizado com suas  questões particulares pois pode haver, em muitos momentos, o confronto com as  questões da vida de outras pessoas que talvez não estejam resolvidas em sua  própria vida,  para isto não se transformar em obstáculo na relação e não  prejudicar o processo do cliente,  é fundamental que o psicoterapeuta  conheça suas limitações e trabalhe as mesmas.

Tornar-se psicoterapeuta é mais que ser conhecedor de livros e técnicas, é  ser capaz de acreditar que é possível acreditar nos seres humanos, e poder  facilitar o outro de forma que este cresça em direção a uma melhor qualidade de  vida e, para tornar-se facilitador, é necessário a associação da prática com a  teoria, vivenciando um conjunto de experiências, desenvolvendo várias  qualidades, principalmente pessoais. E não existe uma regra que diga como se faz  para se conhecer, o que existe é a coragem de enfrentar este caminho, que  algumas vezes é doloroso, mas ao mesmo tempo é maravilhoso. A presença das  atitudes facilitadoras no psicoterapeuta é fundamental e imprescindível quando é  estabelecida qualquer relação em que o objetivo seja o desenvolvimento da  pessoa, se estas atitudes estão presentes, cria-se um clima facilitador de  crescimento, pois o psicoterapeuta torna-se uma pessoa terapêutica (POLETTI,  2008).

Abandono de Psicoterapia

O abandono de psicoterapia conforme Lhullier e Nunes (2004, p.44): é “quando  o paciente, por decisão unilateral, com ou sem o conhecimento prévio do  terapeuta, tendo comparecido a pelo menos uma sessão de terapia, cessa de  fazê-lo, definitivamente, independente do motivo que o levou a isso”.

Gastaud (2008), comenta que há uma grande dificuldade em definir abandono em  psicoterapia, devido ao fato de que a definição depende da modalidade de  tratamento, do referencial teórico que embasa a técnica utilizada e que mesmo  dentro dessa modalidade, não existe concordância quanto aos critérios que devem  compor essa definição, sendo assim, definir abandono com base no julgamento  do  terapeuta parece ser a forma mais  adequada.  As   definições  de  abandono  fundamentadas  no   julgamento  do  terapeuta acabam  se  mostrando   as  mais  confiáveis  e  generalizáveis,  uma   vez  que  respeitam  a  singularidade de cada caso e podem  ser aplicadas em qualquer modalidade de tratamento.

Pensa-se,  dessa  forma,  que  a  definição   mais  adequada  de  abandono  deve  ser  fundamentada  com  base  nos  objetivos  do   tratamento,  levando  em  consideração  se  estes foram  ou não  atingidos. A definição precisa de  abandono, portanto,  deve  ser  aquela que enquadra os casos em que o paciente ou o   terapeuta  termina  a psicoterapia antes que os objetivos  estabelecidos no contrato  tenham  sido atingidos,   independentemente do motivo que levou à interrupção  (GASTAUD, 2008  p.28).

De acordo com os estudos de Chaieb et al.(19–), o abandono suscita vários  sentimentos nos profissionais, desde os mais paranóides, entre os quais pode-se  salientar: frustração e sentimentos de raiva; irritação e negação do abandono, e  também sentimentos de tristeza, desejos de reparação, preocupação e sentimentos  de impotência por não poder continuar ajudando o paciente. Todos esses  sentimentos são formas de lidar com a perda, que oscilaram, desde reações mais  onipotentes e maníacas, até as reparações mais criativas.

Para Lhullier e Nunes (2004, p.44), “abandonos de tratamento podem se  transformar em experiências ansiogênicas e traumáticas para o terapeuta”. Segundo Chaieb et al. (19–), do ponto de vista de identidade  profissional, a elaboração dos lutos pelos psicoterapeutas frente a perda de  seus pacientes, faz parte do processo de crescimento e da busca da identidade e  integração profissional. Através das experiências de interrupção e abandono de  tratamento, cria-se uma oportunidade de aprendizagem e de crescimento. Para o  terapeuta é um momento depressivo, que pode ser vivido como um luto por uma  relação que se perde, mas ao mesmo tempo é um momento de ganhos importantes. O  crescimento se dá quando se pode utilizar essa experiência para a autoreflexão.  Pensar, estudar, dividir ansiedades com supervisores, colegas e  terapeutas/analistas são formas de aprender com a experiência da perda, bem como  uma forma de ampliar o conhecimento acerca do processo psicoterápico.

Segundo Coelho, Peres e Oliveira (2005), não é exagero pensar que na primeira  consulta de um estagiário, o mesmo se encontra mais inseguro que o próprio  paciente, no entanto, tem o desafio de manejar os sentimentos que o contato com  o outro desperta. O supervisor pode auxiliar o estagiário a  lidar com essa insegurança inicial, mas o estagiário deve utilizar sua  capacidade de transitar pelo próprio mundo mental para desempenhar adequadamente  seu papel na relação terapêutica.

Método

Para pesquisar como os psicoterapeutas em formação lidam com o abandono de  psicoterapia de seus paciente/clientes optou-se por um estudo qualitativo com  base fenomenológica.

Participaram desse estudo seis acadêmicos do curso de Psicologia da Unoesc de  São Miguel do Oeste, que estavam cursando o décimo período e que realizaram  Estágio de Psicologia Aplicada à Saúde no Serviço de Atendimento Psicológico – SAP.

O procedimento utilizado para a escolha dos acadêmicos participantes foi à  presença no local e a disponibilidade em participar da entrevista, também, que  tenham vivenciado o abandono de psicoterapia, durante o estágio no SAP. As  entrevistas foram realizadas de forma individual, e aconteceram em uma sala no  SAP, disponível no momento.

Os dados foram coletados através de entrevistas, estas foram gravadas e  posteriormente transcritas para analise. Para garantir a confiabilidade e  anonimato das informações disponibilizadas pelos participantes, no momento  anterior à entrevista foi fornecido um Termo de Consentimento Livre e  Esclarecido. Para resguardar a identidade dos participantes utilizou-se a letra  E que se refere à pessoa e o número após cada letra, diz respeito ao número da  entrevista realizada.

Para saber  como os psicoterapeutas em formação lidam com o abandono de  psicoterapia de seus pacientes/clientes, a entrevista iniciou com a seguinte  pergunta aberta: O que tu sentes quando um paciente/cliente abandona a  psicoterapia? A partir das respostas, foram extraídas as seguintes essências:  motivos do abandono/dúvidas/ perguntas; fantasias antes do  atendimento/expectativas e esperanças; sentimentos negativos e dificuldades  encontradas no atendimento; sentimentos positivos e formas de superar. Os dados  colhidos foram tratados a partir do método fenomenológico.

Apresentação e Discussão dos Resultados

Sentimentos Negativos e Dificuldades Encontradas no  Atendimento

Surgem vários sentimentos negativos, quanto ao próprio estagiário, que os  leva a pensar e duvidar sobre sua própria competência, culpa a si mesmo. Os  sentimentos vivenciados são os seguintes: medo, traumatizante, culpa  incompetência, impotência, arrasador, horrível, choque, dor. De acordo com os  estudos de Chaieb (19–), abandono suscita vários sentimentos, entre eles:  frustração e sentimentos de raiva, irritação e negação, sentimentos de  impotência por não poder continuar ajudando o paciente.

“No início é bem mais complicado[...] fiquei bem frustrada[...]tipo no  início foi bem traumatizante, nossa horrível, meu Deus não consigo fazer isso  vou largar esse curso e sumi.” (E1). “Sô uma ameba de terapeuta. O que eu estou  fazendo aqui? Porque não tranco essa bosta dessa faculdade?” (E4).

“Na hora … a gente tem uma visão bem pessimista[...] o que eu vivenciei  foi bem (silêncio) bem arrasador[...] é que também …  foi primeiro …,  primeira vez quando a gente começou mesmo a atender então foi um choque, a gente  começa a atender …  e de repente tu tá ali com teu cliente e não aparece  mais[...]desestrutura … a pessoa é isso que realmente a gente passa quando o  cliente abandona” (E6).

“Vieram duas vezes assim e daí desistiram eu me senti rejeitada no início  [...] o sentimento então é rejeição, é pensa que a culpa era minha realmente  [...] não me senti competente” (E3).

“Com todos eles tive essa mesma sensação de impotência [...] uma situação  dessas assim de abandono eu sempre até me questiono até chego a questiona minha  competência.” (E5).

Todos esses sentimentos relatados conforme Chaieb et al (19–), são formas  que os psicoterapeutas encontram para lidar com a perda, e que a elaboração de  seus lutos frente a perda de seus pacientes faz parte do processo de crescimento  e da busca da identidade e integração profissional.

Segundo Coelho, Peres e Oliveira (2005), geralmente, o contato do estagiário  frente a sua primeira consulta ou atendimento, este se encontra, muitas vezes,  mais inseguro que o próprio paciente, sendo assim tem como  desafio manejar  os sentimentos despertados nesse contato com o outro.

Normalmente, quando o abandono de psicoterapia acontece, o estagiário começa  a pensar sobre o que levou a pessoa a abandonar o processo terapêutico,  levando-o a repensar suas condutas frente a seus atendimentos. Outro ponto  fundamental em um atendimento/consulta, é o estagiário saber  identificar/diferenciar o que é seu e o que é da outra pessoa. As falas a seguir  relatam, do quão é difícil separar os sentimentos do terapeuta com os  sentimentos que surgem do paciente/cliente.

            “Tem  sentimentos que é mais difícil, de tu saber levar, ou coisas que batem com  coisas tuas, tipo que a gente teria muito que fazer terapia, mas no caso não vai  e daí fica pesado, daí tem coisas que bate contigo realmente” (E1).

“De não saber separar o que é meu o que é da outra pessoa, aí aquela  coisa de levar pra casa” (E3).

É necessário que o terapeuta aprenda a identificar o que é seu e o que é da  outra pessoa, quais as sensações, emoções e impressões sucedidas dessa relação.   Para isso, precisa ser perturbado, contrariado, viver a experiência da  estranheza, da exposição. todo o processo terapêutico implica um grande  envolvimento pessoal do terapeuta porém em muitos momentos, pode haver confronto  com as questões da vida de outras pessoas que talvez não estejam resolvidas em  sua própria vida. A vulnerabilidade do terapeuta pode torná-lo receptivo as  questões do cliente, mas, se não for reconhecida e trabalhada em sua terapia  pessoal, pode transformar-se em obstáculo na relação, ou até prejudicar o  processo do cliente (CARDELLA , 2002).

O processo terapêutico pessoal mostra-se imprescindível, pois auxilia o  estagiário a compreender os pontos-cegos da sua personalidade. Propor que o  autoconhecimento, a tolerância à frustração e a disponibilidade interna,  associadas a uma fundamentação teórica consistente, instrumentalizam o  estagiário a conduzir um processo terapêutico (COELHO, PERES e OLIVEIRA,  2005).

Sentimentos Positivos e Forma de Superar

Pode-se observar que o que ajudou os estagiários a superar e de alguma forma  vivenciarem sentimentos positivos foi a orientação/supervisão e resultados  positivos com outros pacientes/clientes. Coelho, Perez e Oliveira (2005),  afirmam que se torna patente a relevância do processo de supervisão dos  estagiários, pois a mesma pode auxiliar a identificar as particularidades dos  casos. Devido ao fato de o supervisor ser mais experiente, este é capaz de  perceber a dinâmica da sessão relatada pelo estagiário, de modo pode elucidar  movimentos inconscientes dos quais o mesmo ainda não havia se dado conta.

“Trouxe pra orientação, a orientação ajuda muito cem por cento. Com a  primeira situação foi à orientação que me levantou um monte, e quando eu percebi  que eu consegui ajuda outras pessoas, que eu estava conseguindo ajudar os outros  que daí, tu percebe que tu é capaz, tipo volta o ânimo então a autoestima  levanta então tu continua, [...] tipo que a gente teria muito que fazer terapia,  mas no caso não vai e daí fica pesado, daí tem coisas que bate contigo que  realmente, a gente tem orientação, eu trago pra orientação, daí eu e a prof  [...]  daí eu me abro muito bem e ela me ajuda muito também, fica mais  fácil” (E1).

“Discuti em orientação[...] uma das coisas mais importantes é a  orientação sincera mesmo”(E4).

As supervisões permitem troca de ideias, o compartilhamento de ansiedades  geradas pelas incertezas e inexperiência do estudante, é um local de acolhimento  efetivo para o futuro profissional (YOSHIDA, 2005).

Coleta, Cava e Silva (2005) comentam em suas pesquisas que o estágio  supervisionado é de importância fundamental, percebendo-o como uma oportunidade  de praticar e aprender, e é atribuído ao estágio  uma oportunidade de criar  um estilo próprio de atuação, o que se refere à formação da identidade e do  perfil profissional.

Observa-se assim, que a orientação oferece suporte aos estagiários, para que  estes lidem melhor com as situações de abandono de psicoterapia.   Percebe-se também, uma melhor superação quando as estagiárias vivenciam momentos  em que outros clientes/ pacientes melhoram, quando acompanham os  resultados.  Coleta, Cava e Silva (2005), perceberam que os estagiários  sentem-se competentes quando percebem resultados positivos nos tratamentos,  recebem “feedback” positivo do paciente, acham o foco do problema e estabelecem  uma relação de confiança.

“Eu  tive … não a sorte, mas eu tive uma cliente assim que me  proporcionou muitas coisas e que através  dela, assim, logo na primeira  sessão eu saí da sala e pensei nossa eu posso trabalhar, eu tenho saber, eu  tenho capacidade, dá certo e depois dela eu comecei a perceber sim dava certo  nos outros, a única coisa que eu não enxergava, só via os meus defeitos ou que  eu poderia ter feito como eu devia ter falado tudo aquilo que a gente pensa que  é regra vai funcionar e depois não, eu descobri que eu tinha um jeito particular  de trabalhar e que só ia dar certo se eu fizesse daquele jeito que afinal de  contas era o meu jeito e daí tipo dai eu eu fiquei segura e dai e dai mudou o  jeito de trabalhar o jeito de ver,  o jeito até de olha pra aqueles que não  viera”(E4).

“Os meus outros clientes me levantaram e aí quando tu começa a ver  um resultado, tu percebe que teu cliente tá melhorando que ele coloca pra ti que  tá melhorando, já levanta a tua autoestima de novo daí tu se sente capaz  novamente então pra aquela”( E1).

Através das experiências de interrupção e abandono de tratamento, cria-se uma  oportunidade de aprendizagem e de crescimento. O crescimento se dá quando se  pode utilizar essa experiência para a autoreflexão. Pensar, estudar, dividir  ansiedades com supervisores, colegas e terapeutas/analistas são formas de  aprender com a experiência da perda, bem como uma forma de ampliar o  conhecimento acerca do processo psicoterápico (CHAIEB et al. 19–).

Motivos do Abandono/ Dúvidas/Perguntas

Através das entrevistas pode se perceber que saber o motivo do abandono, o  que aconteceu com seu paciente/cliente, alivia, de certa forma, as estagiárias  de psicologia, parece necessário saber o que ocasionou o abandono. Muitas vezes  as próprias estagiárias entram em contato com os pacientes/clientes para saber o  que aconteceu e em outros casos elas esperam que seus pacientes/clientes entrem  em contato.

“[...] uma vez eu até liguei e entrei em contato pra ver se ela voltaria,  pelo que me falou foi pelo fato de ela ter mudado de cidade, essas coisas,  então, daí alivia” (E1).

“[...] eu liguei pra ver se ele ia retornar” (E5).

Chaieb (19–), relata que a frustração gerada pela perda dos pacientes  acionou sentimentos de impotência/onipotência, que geraram a verbalização de  outros tantos sentimentos frente a perda: sentimentos de abandono, incômodo,  desconforto, desvalorização, surpresa, decepção, e alívio entre outros.  Sentimentos relativos a raiva e decepção eram mais presentes nas situações em  que o paciente não compareceu mais às sessões e o terapeuta ficou sem conhecer o  motivo pelo qual ele abandonou seu tratamento.

Percebe-se um consenso nas respostas a respeito do motivo do abandono,  concordam que no decorrer do processo psicoterapêutico ocorrem mudanças, e  muitas dessas mudanças mexem com os pacientes/clientes fazendo com que eles  abandonem a psicoterapia.

“A gente sente que é porque mexe com o cliente penso assim porque mexe  quando ele tá no processo muito, e isso mexe com ele [...] é que ele se bate de  frente com os sentimentos dele e não sei parece que é uma fuga”( E2).

“Muitas vezes um abandono não é um abandono é uma alta [...] só  precisavam de um desabafo, funciona que uma, algumas sessões funcionam mais como  plantão, vem descarrega, a pessoa vem e fala o que ta transbordando do copo e aí  pra frente não voltou mais porque daqui pra frente eu dou conta sozinha.   [...] mexeu muito com ele porque ele se deu conta de coisas que ele não podia  sozinho, eu acho que isso assustou ele e ele não veio mais”(E4).

“Tu vai mexe, tem pessoas que quando tu começa a cutuca fogem” (E1).

De acordo com Chaieb et al (19–), os sentimentos de frustração desencadeiam   duas formas de lidarem com esse sentimento: uma forma mais projetiva,  colocando nos pacientes a impossibilidade de trabalharem com conteúdos  suscitados no transcurso da psicoterapia, levando ao abandono e, por outro lado,  as frustrações levaram alguns  a tomarem contato com seus próprios  sentimentos, de uma forma mais depressiva, e revisar os fatores que precipitaram  abandono, tanto do ponto de vista pessoal, quanto de técnica e vinculação.

Diante dos abandonos questionam-se sobre seus atendimentos, sobre suas  atuações e sobre seus próprios jeitos particulares de ser e, a partir disso  surge a dúvida: será que eu vou ajudar alguém? Isso aparece claramente nas  seguintes falas:

“O que eu fiz de errado [..] mas será que eu vou conseguir  ajudar”(E1).

“Será que não sentiu segurança em mim,… meu Deus, será que eu não vi  realmente o que está acontecendo com ele” (E2).

“Será que eu vou conseguir realmente  ser terapeuta” (E3)

“O que foi que eu fiz de errado [...] será que foi alguma coisa, será que  foi meu jeito que ele não gostou”(E5).

“Por que eles não gostaram de mim? Não quiseram mais vir por que? [...]  acharam que era uma coisa e é outra[...] o que aconteceu com eles que não vieram  mais [...] a pessoa, de repente, não foi ouvida como deveria ter sido” (E6).

De acordo com Ceitlin e Cordioli (1998), no inicio de uma psicoterapia  ocorrem uma variedade de sentimentos e emoções nos participantes e grande parte  do sucesso vai depender do entendimento e manejo adequado. Um aspecto crucial  para o prosseguimento da terapia é a formação de um vínculo afetivo e de  confiança de tal forma que o paciente se perceba acolhido e aceito em suas  dificuldades pelo terapeuta.

Fantasias Antes do Atendimento/Expectativas e  Esperanças

Quando o estagiário vai para o primeiro atendimento com o cliente/paciente,  este já carrega consigo ideias de como vai fazer, colocando expectativas e  esperanças antes e após o atendimento. Muitas vezes durante e após o  atendimento, quando houve o abandono, percebem que o abandono foi diferente do  que tinham imaginado, que as expectativas foram frustradas gerando assim  sentimentos desagradáveis.

Ceitlin e Cordioli (1998) afirmam que o terapeuta traz para a consulta  aspectos seus, suas fantasias expectativas diante de um novo paciente, sua  insegurança diante do desconhecido, suas dúvidas ou confiança de que será capaz  de ajudar.

“Dói um monte, tipo tu se sente lá no chão, tu cai tudo que tu  imaginou pra ti, bá tô conseguindo ajuda, não era [...] que ódio agora que eu ia  conseguir ajudar”(E1).

“Que nem eu atendi foi tudo … mil maravilhas eu achei que ia fazer um  ótimo trabalho …, e na próxima sessão não vieram [...]Fica idealizando todo  aquele processo inteiro ali é tudo o que pode acontecer quero desvendar mil e  uma coisa e, de repente, assim tu é cortado [...]tu ia fazer  tudo aquilo  …  você não fez nada, daí só fez aquilo …, daí fica tentando achar  aquilo que não deu certo” (E6).

“Eu identifiquei vários aspectos assim que poderiam ser trabalhados ao  longo da terapia, mas fiquei nessa expectativa porque não houve  [...]  tendência de levar  tudo pra mim, assim quando uma coisa não sai do jeito  que eu pensei, mas isto é uma questão mais minha do que do cliente” (E5).

O primeiro encontro frente a frente entre estagiário e paciente, não raro  acontece o desencontro, pois ocorre uma alteração de expectativas que o  estagiário antes alimentava sobre a relação terapêutica, e sendo assim tem-se  início a adoção de uma nova postura. O estagiário começa a se questionar, a  enxergar a si mesmo de forma diferente e a reconhecer efetivamente a existência  do paciente. A nova postura ocorre devido ao contato autêntico e profundo que o  estagiário estabelece com seu paciente (COELHO, PERES e OLIVEIRA, 2005).

Considerações Finais

Esse estudo objetivou conhecer como os psicoterapeutas em formação lidam com  o abandono de psicoterapia de seus pacientes/clientes, conhecer os sentimentos,  questões  que esta vivência suscitou nos estagiários de psicologia.

Muitos dos sentimentos abordados pela literatura foram identificados nas  falas dos participantes. O abandono de psicoterapia traz vários sentimentos  negativos, dúvidas, e, além disso, faz com que o estagiário em formação pense na  sua forma de atuar, se questione sobre seus limites e capacidades, sendo assim,  entende-se que o abandono de psicoterapia ajuda no processo de crescimento do  profissional.

Através das entrevistas, percebeu-se que a maioria das participantes,  relataram um caso especifico no qual ocorreu o abandono, este geralmente foi  considerado sua primeira vivência com o abandono de psicoterapia, a maioria  procurou saber o motivo que ocasionou este abandono. Seria interessante saber se  o relato dos casos deve-se ao fato de este ser marcante para estagiárias.  Observou-se também que a partir do momento em que as estagiárias vão adquirindo  mais experiências, estas lidam melhor com a situação do abandono, e que no  começo, os primeiros atendimentos são os mais difíceis.

Tanto na literatura quanto nas entrevistas realizadas percebe-se que não se  tem um consenso sobre a definição do abandono de psicoterapia. Nas entrevistas  nenhum dos participantes questionou o que seria o abandono de psicoterapia, cada  qual relatou sua vivência da forma que entendiam, teve outras participantes que  não participaram da entrevista, pois disseram que não passaram por essa  situação, e o que vivenciaram, para elas não se caracterizava como abandono.  Devido a essas contradições, discordâncias das definições, e as diferentes  percepções visões dos terapeutas em relação ao abandono de psicoterapia faz-se  necessário mais pesquisas que procurem estabelecer uma definição no geral, sem  envolver na linha teórica em especifico.

É preciso também saber o que os psicoterapeutas entendem por abandono, por  alta, por desistência, pois através dos relatos pode-se perceber que quando o  paciente/cliente não vem mais, mas que o terapeuta percebe que este estava  melhor considera como altas e quando algo no processo da psicoterapia incomodou,  mexeu com os pacientes/clientes, nesse caso é considerado como abandono.   Se for considerado que o paciente/cliente tem autonomia no processo  psicoterápico é possível então questionar se realmente existe abandono de  psicoterapia?

Fonte: http://artigos.psicologado.com/atuacao/psicologia-clinica/formacao-do-psicoterapeuta-lidando-com-o-abandono-de-psicoterapia#ixzz2BG2vGfE5 Psicologado – Artigos de Psicologia Siga-nos: @Psicologado no Twitter | Psicologado no Facebook

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